Reportagem por: Michael Esquer - São Paulo
26/12/2025
O fundo de investimentos Alumi, controlador da fabricante de tecidos catarinense Teka, com 80% das ações preferenciais, está confiante de que a Justiça decidirá pela continuidade dos negócios, após conclusão de auditoria independente feita sobre a empresa. O novo plano de recuperação judicial da companhia prevê ampliação de investimentos em parques fabris, lançamento de e-commerce, abertura de novas lojas e outra proposta de pagamento a credores, afirma o sócio-fundador do fundo, Angelo Guerra Netto.
Em recuperação judicial há 13 anos, a Teka completa um século em 2026. Em março deste ano, quando tinha dívidas da ordem de R$ 3 bilhões, chegou a ter falência continuada decretada pela Justiça catarinense, a pedido da administradora judicial da empresa, a Leite & Cassemiro. No entanto, o fundo obteve liminar que suspendeu parcialmente a decisão e suspendeu a falência da companhia.
A auditoria que deve embasar decisão final sobre a situação da empresa foi conduzida pela Grant Thornton e protocolada na Justiça catarinense no dia 17 de dezembro, diz Guerra Netto. Ele afirma que o novo plano de recuperação judicial foi apresentado no dia seguinte.
“Na proposta do novo plano [de recuperação judicial], trazemos elementos como o início dos testes já de tecnologia, sistema e de logística do nosso e-commerce, que passa a operar a partir do primeiro dia útil de janeiro, um canal de vendas que a Teka até então não tinha”, afirma, em entrevista ao Valor.
A reportagem teve acesso ao relatório da auditoria e, no trecho que analisa o processo de reestruturação e o novo plano de recuperação judicial, ele afirma que o desempenho operacional da empresa e sua geração de caixa suportariam a viabilidade econômico-financeira, “na hipótese de que as premissas operacionais projetadas pela administração sejam atingidas, em conjunto com os investimentos previstos no plano e alteradas as propostas de financiamento existentes.” Mas o estudo adverte que, nesse caso, se concentrou apenas no aspecto econômico do plano, sem considerar questões societárias, tributárias ou legais.
Guerra Netto é otimista, e observa no relatório a redução dos débitos federais, que incluem os previdenciários e tributários, de R$ 2 bilhões para os atuais R$ 770,5 milhões, com relevante compensação já negociada. O relatório também mostra a redução dos débitos tributários em São Paulo, de R$ 310,9 milhões para R$ 93,1 milhões, e em Santa Catarina, de R$ 151,8 milhões para R$ 36,8 milhões. “[Estou] extremamente confiante, até porque o resultado do relatório é claro.”
Outro fator de otimismo é o acordo firmado com os Tribunais Regionais do Trabalho (TRTs) de São Paulo e de Santa Catarina, que engloba 100% das reclamações trabalhistas existentes, de cerca de R$ 70 milhões. O TRT de Santa Catarina, afirma, já conta com cerca de R$ 19 milhões de decisões judiciais da Teka a serem pagos para trabalhadores que aderiram aos acordos. “O restante será pago com a venda de imóveis não operacionais.” Esses imóveis somariam cerca de R$ 120 milhões e o valor excedente das vendas será usado para pagar o saldo devedor do FGTS, cerca de R$ 90 milhões.
Já a nova proposta de pagamento aos credores apresenta diferentes alternativas, segundo Guerra Netto. “Tem perspectiva de oportunidade e tratamento isonômico entre eles, e traz deságios importantes e também formas de pagamento daqueles credores que são colaboradores, parceiros, que estão investindo e continuam.”
"[O plano] Tem perspectiva de oportunidade e tratamento isonômico, e traz deságio importante" — Angelo Netto
Com cerca de 2 mil funcionários, a Teka inaugurou no dia 12 deste mês a primeira loja fora das fábricas, no Outlet Premium, em Itupeva (SP). No próximo ano, quer abrir mais cinco, além de investir R$ 50 milhões em seus dois parques fabris, de Blumenau (SC) e de Artur Nogueira (SP). A meta é aumentar a capacidade produtiva mensal de 700 para 1,2 mil toneladas. O processo também integra o novo plano de recuperação e busca aumentar em 40% o faturamento em 2025, para R$ 750 milhões de reais, diz Guerra Netto.
O último relatório da Leite & Cassemiro sobre o grupo Teka, publicado mensalmente pela administradora judicial, não é tão otimista. Afirma que as demonstrações contábeis referentes a setembro deste ano ainda reforçam manutenção do quadro de desequilíbrio estrutural nas finanças da Teka. E resultados positivos — como aumento de 10% da receita bruta no acúmulo de janeiro a setembro - afirma a administradora, vieram de ajustes contábeis excepcionais.
“O nível de endividamento, a concentração de passivos trabalhistas e tributários e o elevado volume de contingências permanecem como fatores de risco material à continuidade operacional”, diz o relatório da Leite & Cassemiro. Segundo o documento, o valor total das dívidas da empresa, sem contar o patrimônio líquido, era de R$ 3,4 bilhões em setembro, enquanto o total de bens e direitos que a empresa possui, o ativo, era de apenas R$ 1,2 bilhão, o que resultou em patrimônio líquido negativo de R$ 2,2 bilhões.
Para o diretor superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), Fernando Pimentel, o setor de modo geral sofre com o gargalo do “custo Brasil”, diante da alta carga tributária, juros elevados e insegurança jurídica, e, ainda, com a concorrência desleal dos importados, especialmente da China, que tem um excedente produtivo e regras de produção distintas.
“Todos esses fatores têm provocado uma erosão da capacidade concorrencial da indústria”, afirma. “Estudos mostram que a indústria manufatureira brasileira teria que quase dobrar o nível de investimentos nos próximos 7 a 10 anos para acelerar o seu processo de recuperação da sua capacidade produtiva e modernização”, completa.
Fonte: Valor Econômico
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